Por Que Clientes Salesforce Ainda Não Compraram o Agentforce? A Pesquisa KeyBanc Explica

O Agentforce é o produto de crescimento mais rápido na história da Salesforce — ou uma aposta bilionária que ainda não convenceu o mercado? Uma nova pesquisa da KeyBanc Capital Markets com CIOs revela que a resposta depende de para quem você pergunta. Enquanto a Salesforce celebra US$ 1 bilhão em receita recorrente anual, os clientes enterprise dizem que o produto “ainda não chegou lá” e que seus dados não estão prontos para a era dos agentes autônomos.

Neste artigo, analisamos os dados da pesquisa, o abismo da maturidade de dados, os desafios de precificação, a resposta da Salesforce com sua nova estratégia multi-modelo, e o que tudo isso significa para arquitetos, desenvolvedores e líderes de tecnologia no ecossistema Salesforce.

O Que a Pesquisa KeyBanc Revelou

A pesquisa mais recente da KeyBanc Capital Markets com CIOs trouxe dados que acenderam um alerta no ecossistema Salesforce. O banco de investimento rebaixou a recomendação das ações da Salesforce para sector weight (neutro), citando que “o Agentforce, como produto, simplesmente ainda não chegou lá”.

Os números da pesquisa são preocupantes: mais CIOs esperam reduzir os gastos com Salesforce nos próximos 12 meses do que aumentar. Além disso, os clientes relataram de forma consistente dois problemas centrais:

  1. Dados desorganizados: a maioria das organizações admite que seus dados não estão em condições de alimentar agentes de IA com qualidade
  2. Produto imaturo: o Agentforce ainda não entrega o valor prometido nas implementações reais

Jackson Ader, managing director da KeyBanc para software equity research, foi direto: “Nós participamos de mais eventos de parceiros e clientes da Salesforce do que de qualquer outra empresa em nossa cobertura, e o feedback tem sido consistente — os dados dos clientes não estão organizados para fazer trabalho significativo com IA, e o Agentforce, como produto, simplesmente não está pronto.”

O banco também destacou que a Salesforce está promovendo “aumentos agressivos de preços” enquanto a maioria dos clientes “não está disposta a pagar por capacidades de IA através do seu provedor de CRM”. As provas de conceito do Agentforce estão apenas agora começando a gerar pipeline de negócios reais — um sinal de que o mercado ainda está em fase experimental.

O Abismo da Maturidade de Dados

O primeiro problema apontado pela pesquisa — dados desorganizados — não é novo, mas ganhou urgência com a era dos agentes. Um estudo recente da própria Salesforce revelou que 84% dos líderes técnicos afirmam que seus dados precisam de uma reformulação completa antes de conseguirem extrair valor real da IA.

Agentes autônomos não funcionam com planilhas mal preenchidas, campos duplicados ou objetos customizados sem governança. Eles precisam de dados limpos, estruturados e semanticamente coerentes para tomar decisões. E a realidade da maioria das organizações está longe disso.

O problema se agrava porque o Agentforce não é uma ferramenta de analytics — ele age. Um agente que decide enviar um e-mail para o cliente errado, aprovar um desconto indevido ou escalar um caso para o departamento errado não gera apenas um relatório incorreto; gera dano real ao negócio. Com dados ruins, o risco escala exponencialmente.

Empresas que pularam a etapa de governança de dados nos últimos anos estão agora enfrentando a conta. O Data Cloud da Salesforce é posicionado como a solução, mas implementar um data lake corporativo é um projeto de 12 a 18 meses — não algo que se resolve em um trimestre.

ROI Incerto e Preços Imprevisíveis

O segundo grande obstáculo é econômico. O modelo de precificação do Agentforce — e especialmente do Headless 360 — é baseado em consumo. Cada interação de um agente, cada consulta, cada token processado gera custo. Para os CIOs, isso soa familiar demais: é o mesmo modelo que gerou as crises de cloud cost overrun da última década.

Dion Hinchcliffe, CIO practice lead do Futurum Group, resumiu bem: “Os CIOs se tornaram altamente sensíveis a preços de consumo imprevisíveis após uma década de estouros de custos em nuvem. As empresas entendem o poder estratégico do CRM headless e dos fluxos de trabalho baseados em agentes, mas também estão vendo a possibilidade de atividade descontrolada gerada por máquinas dentro dos sistemas centrais.”

Em outras palavras: o medo não é que o Agentforce não funcione. É que ele funcione demais — e a conta venha sem aviso prévio.

O Gartner já havia alertado em janeiro de 2026 que acordos empresariais com limite de gastos (capped agreements) para plataformas de IA e dados podem não estar disponíveis nas renovações, forçando os clientes a um modelo de consumo difícil de prever e orçar. A Salesforce contestou a afirmação na época, mas a percepção de risco permanece no mercado.

A Resposta da Salesforce: Estratégia em Evolução

A Salesforce não ignora as críticas. Um porta-voz declarou ao The Register: “O Agentforce é o produto de crescimento mais rápido na história da Salesforce, com clientes como Engine, Falabella e AAA entrando em produção em semanas, não meses. Estamos focados em ajudar os clientes a avançar mais rápido, inclusive através de engenheiros forward-deployed e agentes prontos para uso.”

Mas os números oficiais também merecem análise. A Salesforce reportou US$ 1 bilhão em ARR (receita recorrente anual) do Agentforce no primeiro trimestre fiscal de 2026. É um número impressionante à primeira vista. No entanto, para uma empresa com receita anual acima de US$ 37 bilhões, US$ 1 bilhão em ARR de um produto que é apresentado como o futuro da companhia levanta questões sobre a velocidade real de adoção.

O que está ficando claro é que a Salesforce está ajustando sua estratégia. Em vez de apostar todas as fichas exclusivamente no Agentforce como plataforma fechada, a empresa está:

  • Abraçando o Claude: a parceria aprofundada com a Anthropic posiciona o assistente Claude como interface de front-end, enquanto o Agentforce opera nos bastidores
  • Adotando o Headless 360: permitindo que clientes usem seus próprios assistentes de IA preferidos, com o Agentforce gerenciando a orquestração e execução
  • Modelo multi-modelo: suportando múltiplos provedores de IA em vez de um ecossistema fechado

Essa flexibilidade é uma resposta direta ao feedback do mercado. Em vez de forçar os clientes a adotarem toda a stack Salesforce AI, a empresa está oferecendo pontos de entrada graduais — você pode começar com o Claude no Slack, evoluir para o Headless 360 e eventualmente adotar o Agentforce completo.

A Ameaça do Vibe Coding e dos CRMs Alternativos

Enquanto as grandes empresas hesitam, as pequenas e médias estão tomando um caminho diferente. O fenômeno do vibe coding — criar software funcional usando linguagem natural com assistentes de IA como Claude ou GPT — está produzindo CRMs inteiros gerados em horas, não meses.

O The Information reportou que algumas SMBs já abandonaram CRMs tradicionais em favor de soluções “vibe-codadas”. Em vez de pagar licenças Salesforce e enfrentar curvas de aprendizado, elas pedem para uma IA gerar exatamente o que precisam — nada mais, nada menos.

Para uma empresa de 15 pessoas, um CRM vibe-codado pode custar US$ 20 em créditos de API. Uma licença equivalente no Salesforce Starter Suite — mesmo com os 70% de desconto atuais — custa US$ 90/usuário/ano, ou US$ 1.350/ano para o mesmo time. A matemática é brutal.

Mas há riscos que as SMBs podem não estar considerando: segurança, compliance, escalabilidade, integrações e manutenção de longo prazo. Um CRM não é só um banco de dados com interface — é um sistema que gerencia pipeline de vendas, suporte ao cliente, automações de marketing e relatórios financeiros. Reproduzir isso com confiabilidade via vibe coding é uma aposta arriscada.

O ponto não é que o vibe coding vai substituir o Salesforce amanhã. É que ele está forçando a Salesforce a repensar sua proposta de valor — especialmente no segmento SMB, onde a simplicidade e o custo são os principais fatores de decisão.

O Que Isso Significa para Arquitetos e Desenvolvedores Salesforce

Para quem trabalha no ecossistema, a pesquisa KeyBanc não é apenas uma notícia de mercado — é um sinal estratégico. Arquitetos e desenvolvedores Salesforce estão na linha de frente dessa transição e precisam se preparar para três cenários:

1. Governança de Dados Como Prioridade Zero

Se sua organização ainda não tem uma estratégia de governança de dados, esse é o momento de iniciar. O Data Cloud não é um produto que se implementa em duas semanas — requer mapeamento de fontes, harmonização de schemas, políticas de qualidade e, frequentemente, mudanças organizacionais. Arquitetos que dominarem Data Cloud e estratégias de qualidade de dados terão uma vantagem competitiva significativa nos próximos 18 meses.

2. Agentforce com Expectativas Realistas

Implemente provas de conceito do Agentforce, mas com escopo limitado e métricas de sucesso claras. Comece com um domínio específico — atendimento ao cliente, qualificação de leads ou automação de processos internos — onde os dados já estejam estruturados. Evite o erro de tentar automatizar processos complexos com dados não confiáveis.

3. Arquitetura Híbrida: Claude + Agentforce

A estratégia multi-modelo da Salesforce abre espaço para arquiteturas híbridas interessantes. O Claude pode servir como interface conversacional e camada de raciocínio, enquanto o Agentforce gerencia a execução transacional e a integração com o CRM. Saber desenhar essa divisão de responsabilidades será uma habilidade cada vez mais valorizada.

Casos de Uso Que Fazem Sentido Hoje

Apesar do ceticismo, existem cenários onde o Agentforce já entrega valor real. A chave é escolher domínios com dados de alta qualidade e processos bem definidos:

Service Cloud — Resolução de Casos de Nível 1

Agentes que respondem perguntas frequentes, redefinem senhas e encaminham casos para as equipes corretas. Dados de base de conhecimento são mais fáceis de manter estruturados do que dados transacionais complexos.

Sales — Qualificação de Leads

Agentes que analisam leads entrantes, pesquisam informações da empresa em fontes externas e atribuem scores de qualificação antes de encaminhar para um vendedor humano.

Commerce — Recomendações de Produto

Agentes que analisam histórico de compras e comportamento de navegação para sugerir produtos relevantes, usando dados que já estão estruturados no Commerce Cloud.

Slack — Automação de Workflows

Agentes integrados ao Slack que resumem canais, criam tickets a partir de conversas e automatizam aprovações — um dos casos de uso com adoção mais rápida, segundo relatos de clientes.

O Caminho Adiante: Entre o Ceticismo e a Oportunidade

O que a pesquisa KeyBanc realmente nos diz não é que o Agentforce vai fracassar. É que a adoção de agentes de IA no ambiente enterprise é mais complexa do que os slides de vendas sugerem — e que o mercado está começando a cobrar resultados, não promessas.

A Salesforce tem histórico de adaptação. A empresa sobreviveu à transição para a nuvem, à ascensão do mobile e à era das redes sociais corporativas. A questão agora é se consegue navegar a transição para a IA agêntica rápido o suficiente para manter a confiança dos clientes — e dos investidores.

Os sinais são mistos. O Headless 360 e a parceria com a Anthropic são movimentos inteligentes que mostram flexibilidade estratégica. Mas o feedback dos clientes — capture na pesquisa KeyBanc e ecoado por analistas como Dion Hinchcliffe — sugere que o produto ainda precisa amadurecer significativamente antes de justificar o investimento que a Salesforce está pedindo.

Para profissionais do ecossistema, a mensagem é clara: este é o momento de investir em habilidades de dados, arquitetura de agentes e estratégias híbridas de IA. A demanda não vai desaparecer — mas o perfil do profissional que entrega valor nesse novo paradigma é diferente do que funcionava há três anos.

Conclusão

A pesquisa KeyBanc não é uma sentença de morte para o Agentforce — é um reality check. O mercado enterprise está dizendo, em alto e bom som, que quer agentes de IA, mas precisa de três coisas primeiro: dados organizados, preços previsíveis e casos de uso com ROI comprovado.

A Salesforce está ouvindo. A evolução da estratégia — do Agentforce monolítico para um ecossistema flexível com Claude, Headless 360 e suporte multi-modelo — mostra que a empresa entendeu o recado. A pergunta que fica é sobre velocidade de execução: a Salesforce consegue entregar essa visão antes que os clientes encontrem alternativas?

Para arquitetos, desenvolvedores e administradores Salesforce, o conselho prático é: não ignore o Agentforce, mas implemente com inteligência. Comece pequeno, com dados limpos, em domínios de alto valor e baixo risco. Documente o ROI. E mantenha-se atualizado sobre a evolução rápida deste mercado — porque em 12 meses, o cenário será radicalmente diferente do que é hoje.

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